Sara Gekas
Um lenço vermelho, uma taça de água, cristais naturais e a fumaça de ervas e especiarias, todos esses elementos iluminados pela chama de uma vela. É assim que a cartomante Glaucineide Alves Lima inicia sua sessão de leitura de oráculos. A partir da manifestação e materialização dos quatro elementos primordiais, é invocada a egrégora espiritual cigana. Que atuará na orientação de possíveis caminhos por meio da interpretação energética de seus clientes.
Egrégora: campo energético criado pela união de espíritos da mesma energia.
Foto: Sara Gekas.
*momento de preparação da mesa de cartas com representação dos 4 elementos*
Em certas leituras, Glaucineide, também chamada de Neide, relata que existem consulentes com certos caminhos praticamente definidos. Por coincidência ou não, seu destino com a espiritualidade também é um destes casos. Nascida em Serra Talhada, município de Pernambuco, Neide nasceu envolta no misticismo, lendas urbanas e crenças populares. Mas foi aos 14 anos, após sua mudança para Santa Catarina, no município de Orleans, que a espiritualidade se atrelou aos seus caminhos definitivamente.
Em sua cidade natal, a cartomante relembra que, desde criança, sempre viu e acompanhou seus pais e conhecidos em idas a benzedeiras e oraculistas. Mesmo com a mudança de estado, o costume se manteve.
Em uma destas idas à oraculista, acompanhando seu pai, Edmilson Pereira Lima, seu dom se revelou. De repente, as cartas se transformaram em figuras e estas figuras tornaram-se letras, que, em uma mistura quase melodiosa, saltaram pela boca de Neide. Que acabara de interpretar toda a leitura espiritual de forma quase mágica.
À princípio, o choque e espanto foram as primeiras reações dos adultos presentes na cena. Mas, ao confirmarem toda a interpretação da jovem Neide, a futura cartomante recebe seu primeiro baralho como presente.
Daquele momento em diante, Neide conta que começou a ler as cartas para as pessoas da família. Tios, irmãos, e a cada leitura, sua conexão com a egrégora cigana foi se intensificando.
“Mandei fazer um baralho de ouro, só para a Cigana jogar.”
*Refrão de canção religiosa de Umbanda para a egrégora dos ciganos espirituais.* 
Foto: Sara Gekas.
O ato de ganhar um oráculo espiritual pode ser considerado um dos mais simbólicos dentro de algumas tradições espirituais e culturas religiosas. Ele se torna o elo físico de uma comunicação entre o oculista, sua centelha espiritual e aqueles que buscam orientação.
E foi por meio deste elo, representado pelo baralho cigano — oráculo de 36 cartas —, que Neide conheceu suas mentoras astrais, que se apresentam nas falanges de Cigana Dara e Pombagira Cigana 7 Saias. A cartomante relata que, quando mais nova, sentia tanto as energias das mentoras que o tom de voz e o modo de falar chegavam a mudar, sintomas que hoje são bem controlados.
Falanges: grupamentos hierarquizados de espíritos com afinidade vibratória.
Foto: Sara Gekas.
*Imagens de gesso das entidades Cigana Dara e Pombagira Cigana 7 Saias*
O que era apenas uma simples leitura de cartas aos poucos se tornou parte do propósito de vida de Neide. Seguindo apenas a intuição de seus guias, foi aprendendo sobre as ervas, a força do vento, o poder da chama de uma vela e a potência energética que um único copo d'água pode conceber. Assim, ela seguiu cuidando sozinha da sua espiritualidade, apenas com pouco auxílio de benzedeiras e dos guias espirituais que passaram a se apresentar.
Com o passar do tempo, o fluxo de trabalho foi aumentando cada dia mais e, além das cargas espirituais, as físicas e emocionais também começaram a pesar. Aos 22 anos, Neide acabou se casando e gerando seu primeiro filho, Rafael Lima Cabral. Com a chegada da maternidade, as prioridades passaram a mudar, e todo o tempo e dedicação que a juventude permitia que fossem dedicados a seus ancestrais agora ganharam outro caminho.
Seu relacionamento, que gerou seu bem mais precioso, também a roubou de seu dom tão genuíno. O preconceito religioso do companheiro da cartomante, assim como uma neblina escura, criou uma barreira entre ela e sua ancestralidade. Que antes se apresentava para ela como um céu estrelado facilmente mapeado. Suas crenças passaram a ser demonizadas, julgadas e oprimidas. Até que ela guardasse seu lenço vermelho no fundo da gaveta das lembranças.
A volta às raízes.
A reconexão com a essência de quem se é pode ser considerada um ponto-chave nesta história. Após o período de repressão que foi o relacionamento com o pai de seu primeiro filho, Neide decide finalmente cruzar os mais de 3 mil quilômetros de distância e saudade; de si mesma e suas origens.
De volta à Serra Talhada, o que eram apenas 40 dias se tornaram quase um ano. Lá, além de sentir a aridez de sua terra natal e a brisa quase maternal, o reencontro se tornou reconexão. Ao olhar suas raízes, ela conheceu outras formas de culto à ancestralidade. Sentindo e vivenciando novamente a força de seus antepassados, passou a estudar as linhas espirituais e a se entender dentro dos cultos de matriz afro-indígena, como a Umbanda. 
Foto: Sara Gekas.
“Quem é filho de Ogum roda, balança e não cai.”
*Refrão de canção religiosa de Umbanda para a egrégora dos ciganos espirituais.*
Após uma caminhada turbulenta, com incertezas e vários quilômetros percorridos, Neide volta a Santa Catarina. Agora estabelecida em Criciúma, encontra a Umbanda. E em sua atual casa de religião, mais do que um lugar de fé, ali reencontrou a menina de 14 anos que um dia foi.
E em uma gira — sessão religiosa — em homenagem à força do orixá Ogum — divindade da mitologia iorubá e das religiões afro-brasileiras — que entendeu que era aquele caminho que a ajudaria a se reencontrar com seu propósito.
Hoje, 32 anos depois, ela consegue lidar com sua espiritualidade e entender seus dons com maturidade e responsabilidade. Filha de Iansã e Ogum, atualmente ocupa o cargo de Mãe de Santo Grande no Centro Espírita Nossa Senhora da Glória.
Trabalhando com a cartomancia novamente, muitas histórias já passaram por sua mesa de oráculos. De forma sincera e com o olhar refletido de memória, a cartomante confessa que carrega um pedacinho do sentimento refletido no olhar de cada cliente que já atendeu. Mesmo não se recordando das histórias, ela afirma que, além do brilho, os olhos também são janelas para a alma.
Além do compromisso espiritual, a responsabilidade e o respeito consigo mesma voltaram a ser seu foco principal. Agora, como uma mulher espiritualizada, ao olhar sua imagem pelo visor da câmera, é visível que ela não renuncia mais a si e nem se deixa rebaixar por qualquer imposição de padrões ou preconceito alheio.
“Hoje vivo a espiritualidade, que é libertação e não aprisionamento. Sou cartomante, sim! E tenho muito orgulho da minha trajetória”, finaliza Neide, a cartomante. 
Foto: Sara Gekas.
*Neide, a cartomante*